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entenda como o cão pensa a partir do funcionamento da sua memória

Experimento "Bonzinho/Malvado" e a memória dos animais

 

Comumente encontramos em artigos ou programas de televisão, pessoas falando sobre a percepção dos nossos animais de estimação estarem diretamente relacionada ao tempo presente. Que a recompensa pelo bom comportamento ou a bronca pelo mau, deve ser dada no momento exato da execução do comportamento. Isso pois, o cão vive o aqui e o agora. Sua mente, de forma consciente não está ligada nem no passado e nem no futuro.

 

Diante disso, surgem inúmeras perguntas de como funciona a memória e recordação dos animais. Como a preferência e amizade que eles demonstram por certas pessoas e a rejeição a outras. Sendo que sua mente consciente está no presente. Dessa maneira não há como eles se lembrarem dos indivíduos com quem interagem ou interagiram.

 

Mas então, como é que os cães ficam felizes quando veem seus donos chegarem em casa. Como se lembra que essa interação, ou pessoa, é boa para ele?

 

Ou quando demonstram não gostar de determinados locais ou situações, evitando-os. De que forma pode ele saber que naquele local acontece coisas indesejadas? Um exemplo é o caso de alguns cães que não gostam de tomar banho, e ao serem levados ao banheiro ou ao ouvir a palavra banho, choram, fogem e rosnam.

 

Na esteira dessas ideias, surgiu o presente artigo. Que tem por objetivo lhes trazer um experimento que irá ilustrar com perfeição e simplicidade, a relação “tempo presente” citada acima. E lhes dará um pequeno vislumbre, de como é a percepção e a consciência dos animais. Bem como a relação, entre as emoções existentes em uma interação, com as preferencias e escolhas de cada animal.

O experimento Bonzinho/Malvado

 

David é uma pessoa incapaz de aprender qualquer fato novo. Ele possui um dos mais graves distúrbios de aprendizado e memória já registrados. Seu problema é causado por uma lesão extensa em ambos os lobos temporais, incluindo uma lesão no hipocampo (cuja integridade é necessária para criar a lembrança de novos fatos) e na amígdala.

memória do cão

Ele não consegue gravar em sua memória qualquer som, aparência física, um lugar, uma palavra ou acontecimentos que sejam novos. Por consequência, não consegue aprender a reconhecer nenhuma pessoa nova, pelo rosto, nome, voz ou coisa alguma relacionado ao lugar onde a encontrou.

 

No entanto, começaram a perceber suas preferências e aversões por determinadas pessoas do local. Local esse, que ele vive por cerca de vinte anos. Havia pessoas a quem sempre recorria para pedir favores (xicara de café, cigarro...) e outras que ele simplesmente evitava. Situação interessante, dado o fato de ele não fazer a menor ideia de quem eram essas pessoas. Ou de não ter nenhuma memória delas ou relacionada a elas.

 

Esse caso chamou a atenção do neurocientista António Damásio, onde ele e seu colega Daniel Tranel. Conceberam um experimento chamado “O experimento bonzinho/malvado”.

 

O experimento ocorreu durante cinco dias consecutivos em ambientes e circunstâncias controladas. Em ordem aleatória e tempo devidamente controlado. Utilizou inúmeras salas, e contou com a ajuda de diversos auxiliares.

 

Nesse experimento conseguiram que David participasse de três tipos distintos de interação humana. A primeira era uma pessoa extremamente simpática e agradável, e que sempre recompensou David, mesmo que ele não pedisse (o “bonzinho”). A segunda, era uma pessoa emocionalmente neutra, e que o incumbiu de tarefas neutras, nem agradáveis nem desagradáveis (o “neutro”). E a terceira, era uma pessoa extremamente rude, que negava a todos os seus pedidos, além de aplicar tarefas psicológicas maçantes e entediantes (o “malvado”).

O resultado foi surpreendente

 

Após os cinco dias do experimento. Pediram que David participasse de duas tarefas:

 

Na primeira tarefa, colocaram conjuntos de quatro fotografias, dispostas na sua frente. Em cada conjunto de fotografias incluíram o rosto de um dos três indivíduos do experimento. Fizeram então, duas perguntas: “Qual dessas pessoas você procuraria caso precisasse de ajuda?”. E ainda: “Quem você acha que é seu amigo neste grupo?”.

como funciona a memória do cachorro

O resultado foi surpreendente. Nos casos em que o indivíduo que fora afável encontrava-se entre as quatro fotografias, David o escolhera 80% das vezes. Seria simplesmente o acaso, se as escolhas dele estivessem entorno dos 25%. Porém a margem ficou muito acima, comprovando que de aleatório não havia nada.

 

Nas vezes em que o indivíduo neutro estava presente, esse foi escolhido por uma probabilidade não maior que a do acaso. Já o indivíduo malvado quase nunca foi escolhido.

 

Na segunda tarefa, pediram a David para olhar o rosto de cada um dos três indivíduos e lhes contar o que sabia sobre cada um. Ele nada soube dizer, pois nada veio a sua mente. Ele não soube identificar nenhum, nem aponta-los pelo nome. Também lhe perguntaram sobre os eventos que se sucederam nos dias anteriores, e sua resposta foi a mesma. Ele não possuía nenhuma memória relacionada a nenhum dos indivíduos nem mesmo ao fatos acontecidos.

 

Por fim, quando perguntado sobre qual dentre os três era seu amigo. Ele consistentemente, escolheu o bonzinho.

 

Não havia nenhuma memória na mente de David, nada que o fizesse escolher o bonzinho ou rejeitar o malvado. Nem mesmo David sabia dizer o que impulsionara suas escolhas, apenas agiu assim.

 

A preferência que seu inconsciente manifestou provavelmente se relacionou com as emoções a que foi exposto durante a interação com cada um dos indivíduos. David não adquiriu nenhum conhecimento novo, que poderia ser mobilizado em sua mente em forma de uma imagem. Mas algo permaneceu em seu cérebro, que permitiu gerar ações comensuráveis com valor emocional semelhante ao dos encontros originais. Valor cuja a causa era a recompensa ou ausência da recompensa.

A relação do experimento bonzinho/malvado com os animais 

 

O experimento acima abordado, retrata o caso de David, que não consegue se lembrar do rosto dos indivíduos, nem das experiências vividas com cada um. Esse caso não difere em quase nada da forma com que os animais se lembram dos indivíduos que interagiram.

Antonio Damásio e a memória canina

O experimento acima abordado, retrata o caso de David, que não consegue se lembrar do rosto dos indivíduos, nem das experiências vividas com cada um. Esse caso não difere em quase nada da forma com que os animais se lembram dos indivíduos que interagiram.

 

Os animais vivem o presente. Dessa maneira, nenhuma imagem lhes vem a mente quando em contato com seus donos ou qualquer indivíduo. Porém, as emoções vividas junto a interação com um determinado indivíduo, é por ele evocada na presença do mesmo. E isso não fica restrito apenas a indivíduos. Mas também, locais que ele já frequentou evocarão as mesmas emoções por ele vividas naquele lugar.

 

Um exemplo, é um fato observado durante o experimento. Certo dia, estavam levando David até a sala, quando do corredor ele avistou o “malvado”. Sua reação momentânea foi de rejeição e fuga. Após poucos segundos, ele voltara a seu estado neutro. Isso porque, ao ver o “malvado” seu organismo sentiu as emoções relacionadas a interação com esse indivíduo.

 

É dessa maneira, semelhante ao do David, que os animais se “lembram” das coisas. Eles assim como David, não saberiam dizer o que de fato impulsiona suas escolhas.

 
REFERÊNCIA

 

DAMÁSIO, António. O mistério da consciência: do corpo e das emoções ao conhecimento de si. 2° ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

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